6 de março de 2014

Anedotas!

"Todos os dias a cerveja salva a minha vida!"

30 de novembro de 2013

3 de setembro de 2013

Fought

We must put the head up
and never give up
We must be determinated
Neva reclame
and Fight!

18 de maio de 2013

Tempos


Hoje eu tava noiado
do jeito que a vida estava
do jeito que a vida vinha
do jeito que a vida ia estar
ai sai para tomar uma cerva,
pode chamar de breja, gelada, bear or whatever
sai do balcão sentei na mesa pedi uma pizza metade portuguesa
metade calabresa, cortada à francesa
eu tinha certeza, mas pouca nobreza e comecei a viajar:

A vida é difícil para todos, depende do jeito que você encara a dificuldade

Eu vi o clichê, parei os porquês, mas vi utilidade naquela nóia.
E recomecei:
Krishna, Buda, Jesus ou Alá?
Krishna, Buda, Oxum ou Alá?
Parece que esses caras não dão em nada.
Será que vou morrer?
Será que vai dar certo?
Será que vou pro céu ou pro inferno?
Seremos mais discretos?
Ou haja o que hajar? (sic)
Quando o diabo era criança
Lá na pérsia, perto de Passargada
Onde tinha um rei e eu era amigo dele
Ele era amigo meu
Eu não tinha inimigos
Lá pelos idos de 1900 e 2003
Quando tudo parecia mais fácil


16 de maio de 2013

Concreta


É tanto concreto na selva
Que a pedra alucina
E o pó da raspa Severina
Sete vidas arrancar

24 de abril de 2013

Contr(ao)verso

Ontem ventou
Pedra no futuro.

18 de julho de 2012

Senso de censura

Pai,
Falta-me um dedo
O dedo que aponta sem medo
Regalo de incrédulo sincrético
Dedo herege, covarde,
Converge à bondade no cerne.
Pai, por quê? Deixastes amputar meu dedo
Indicador que só aprazia fazer o bem, pai.
Apenas verdades e melhoras ostentava
E quando o indicador apontou à cara
A tara pela ganância
A ânsia da mais valia
Valeu-se da truculência e da intolerância
E me calou. 
Arrancando, amputando, dilacerando
O querido indicador.

31 de março de 2011

Tempo

Aos que levantaram-se das tumbas dos mortos vivos e, por acaso, somente por acaso, passaram por aqui, alerto-vos que estarei fora por algum tempo. Quiçá, muito tempo.

19 de fevereiro de 2011

Saltos de Coragem

Minha alma estava mergulhada num universo translúcido de caos e eu nem sabia distinguir minha vida pessoal da profissional. Pelo menos é o que me dizem sempre desde que o Gabriel se foi. Então quando encontrei aqueles castanhos olhos, que a principio não representava nada. Mas nada como aquele hipno olhar, cuja estranheza causou em mim uma sensação dual, pois apresentava-se tão viril e tão imaturo que me deixou ligeiramente fragilizada. Parece que ele sentia, mesmo contra o vento, o perfume afrodisíaco que era expelido como larva de vulcão do meu corpo. Agora... Merda!


Fui àquela droga de lugar para tentar relaxar e esquecer problemas, pensar uma nova carreira e me acontece isso... Essa droga me martiriza e, definitivamente, eu não sei o que fazer. O Gabriel se foi, mas é como se ele estivesse aqui... toda essa culpa... Meu Deus!

Definitivamente – como sempre dizia –, Paula não sabia o que fazer. Tentou, então, esvaziar a cabeça pondo-a entre às mãos enquanto recolhia o ventre à proteção das pernas. Envolta por todo bem-estar dum luxuoso ambiente, sentia-se mal por dentro. Seu interior estava sendo corrompido pela dor da perda e pela culpa de um amor que inocentemente apareceu e a deixou desolada.


Se as pessoas e se ele soubesse pelo que tenho passado todos esses dias, talvez fosse mais fácil. Se ele soubesse que no dia seguinte eu estive lá para provar aquele beijo que me inflamou... Ah! Se ele soubesse que ao invés de sair andando, mantendo a pose e a postura o que eu mais desejava era correr e sumir.


Enquanto a frescura do condicionador de ar a envolvia, o conforto da poltrona à acolhia, o colorido das paredes a projetou num vazio insólito e quando se deu por si havia derramado uma única lagrima. Rapidamente enxugou o rosto e da mesma forma olhou ao redor. Nesse virar de cabeça, ao lado esquerdo, viu uma pintura torneada por uma medieval moldura, levantou-se e se dirigiu, descalça e portando pouca roupa – um baby doll –, à pintura, atravessando um curto espaço na sala pouco iluminada. Parou, coisa de trinta centímetros de distância do quadro e o observou atentamente, observou e torneou a moldura com o indicador percebendo a resposta para seus problemas ali. A imagem materializava-se em rústica, mas magistral mistura de tintas: dois corpos nus, entrelaçados, em tons azuis amarelados, como se fosse apenas um e um corpo estranho abraçando ambos. Agora, já violando a sacralidade da obra de arte, percorria com o dedo as curvas onde ora entendia-se o másculo, outrora a sensibilidade feminina. Correu a imagem sentido a aspereza da textura antiga até chegar ao fim onde jazia escrito: pourquoi Rodin. Sem entender muito do francês, se retirou obtendo uma possível resposta às suas inquietações.


Recolheu-se ao seu pequeno aconchego de reflexões e ali ficou por algum tempo pensando se o que a atormentava eram valores morais, tesão, saudade ou tudo aquilo junto. Levantou-se, pois, e se dirigiu à saída do escritório; abriu a porta e enquanto se retirava do amplíssimo escritório riu-se suavemente, sem saber se por confusão ou desespero, tomou a direção do corredor de quartos. Adentrou o ambiente, abandonando o gélido chão e encontrando a maciez felpuda dum tapete tailandês, buscou o aparelho telefônico em cima dum criado-mudo onde jazia também uma robusta e prateada desert eagle.50. Observando a grave falha recolheu a potentíssima arma e a pôs numa misteriosa bolsa; daquela retirou um móbile phone e sentada sobre uma das pernas com a coluna suportando uma curvatura de berimbal Maria colocou-se a pensar sobre os porquês de tudo aquilo enquanto digitava alguma mensagem no aparelho.


Abriu a bolsa, pegou uma vez mais sua arma, manuseou aqueles dois quilos com extremíssima facilidade. Ponderou e, guardou a belicosa. Levantou-se lentamente do conforto daquela cama, respirou profundamente, externando determinação e se dirigiu a sacada do quarto. Sentiu uma fresca brisa acariciar sua face, no décimo oitavo andar daquele apartamento na parte nobre da capital baiana, olhando à beleza já nostálgica do mar deixou se corpo reclinar sobre a pequena barreira de proteção projetando seu corpo numa queda livre sem voltas.


Segundos depois, Dona Dada, funcionária da casa chega ao local procurando sua patroa, mas enquanto d. Dada lá em cima a procurava, lá em baixo um bolo de gente circundava os farelos humanos daquela linda mulher. Só restava agora a tristeza e uma mensagem no móbile phone: “me desculpem, amos todos vocês!”

2 de fevereiro de 2011

"Coronelismo, enxada e voto."

Um dia desses aí, numa fresca manhã, Junior havia levantado cedo, como de costume, por volta das seis horas. Nesse ínterim uma parca neblina cobria a copa de algumas árvores num amplo e declinado curral. Uma beleza estonteante contemplou a vista do garoto quando o sol que se erguia a lentos passos por detrás dum pequeno monte ao lado de sua casa, lançou flechas de luz sobre a copa daquelas mesmas árvores penetrando a quase nula neblina.
Quando a coluna de névoa se esvaiu, ele pode ver com os olhos brilhantes e o rosto acariciado por refrescante brisa, a fontinha onde alguns cabritos e bois, e a novilha Rosa Branca pastarem e beberem água ali perto. Além da fonte Junior podia ver uma singela horta, em variados tons de verde mais à esquerda e um lindo e colorido pomar à direita. Observando o pomar, desejou as vermelhas maças que brilhavam, nas organizadas fileiras, como bolinhas numa árvore de natal. Antes de poder contemplar a beleza dos mamoeiros e das flores de maracujá que pendiam da cerca ao lado um forte cheiro de café penetrou-lhes a narina. Aquela sensação rotineira fez Junior tomar uma decisão ousada e quando se deu por si, estava dividido simetricamente pela farpada cerca que o separava do curral e do glorioso pomar, do éden jardim. Mas quando no meio da ousada atitude ecoou um grito:
– Ôoo, Juninho! Vem tomar café menino. Percebendo a demora na resposta, dona Maricota, insistiu com ímpeto, autoridade e força: Junior!
Juninho era um menino magricelo de oito anos com os olhos fundos e a barriga estufada, tinha todos os sintomas de lombrigas diversas. Após o grito, o menino assustado, sem camisa, só de short e de pés descalços estremeceu entre o paralelo farpado que o separava do curral. Balançou e quando tentou recuar o amarelado short enganchou nos arames. Lutou com força até que o shorts ganhou um rasgão. Por sorte não se lascou no farpado. Mas agora sua mãe já estava parada a observá-lo.
– Que é que tu ta fazendo aí menino? Já num disse pra você não atravessar essa cerca? Arrede pra dentro.– Ta mãe. Eu só queria comer uma maçã.– Não quero saber de explicação. Vamos.
Entraram na pequenina casinha, coisa de quatro curtas paredes e três cômodos. As paredes davam sinais de todo o desgaste temporal, pois o mofo corroia-lhes os pés. Na sala um sofá antigo e escrachado, uma máquina de costurar puro ferro que servia de banca para o radinho AM/FM. Na cozinha o fogão a lenha soltava labaredas volumosas que corroíam a madeira e nada mais, além de manchar as ripas corroídas do telhado.
– Come aí que vamos na rua levar a roupa da dona.– Certo. Respondeu cabisbaixo. Mãe, posso fazer uma pergunta?– Mais uma, não é? Pode sim.
Juninho com a curiosidade da infância lança a inocente pergunta: – Porque tem tanta terra lá do lado da casa do doutor Manoel e do nosso lado só tem isso?
– Ora... Ques pergunta são essa, menino? O homem é político, por isso tem tanta riqueza. Além do mais ele nos ajuda dando cesta básica.– Mas, mãe. Eu queria maçãs e aquelas frutas lá do curral. E essas compra que ele da pra nós num instante acaba e ele demora um tempão... um tempão para dar outra.– Ó. Eu vou lhe explicar como a coisa funciona. Um político precisa de votos. Então, o seu Manoel promete a nós que nos beneficia se a gente votar nele. Então nós vota.– E se a gente não votar nele, o que acontece mãe?– Ele não ganha e nós também não ganha. Porque se um político ruim entrar não vai dar cesta básica pra gente e remédio pra gente.– E como é que ele sabe que nós não votou nele?
Um silêncio reticente abateu o ambiente rapidamente.
– E eu sei, ué?– Então, mãe, a gente não pode procurar um político melhor, que da mais coisa pra gente?
Dona Maricota uma senhorita de uns trinta anos, cabelos lisos e penteados, tez clara, mas bronzeada pelo abuso involuntário do sol diário. Linda, mas descuidada e abandonada; achou interessante as reflexões do filho e ponderou enquanto pôs cuscuz num prato plástico azulado e café num caneco de mesma cor para Junior. Ao mesmo tempo recolhe uma xícara num pequeno armário ao lado do forno a lenha e se serve com um menor de café. Dirige-se até a porta dos fundos e senta-se no batente dando leves beliscadas na bebida matinal.
– E eu sei?– Sabe o que mãe?– Eu acho que a gente podia encontrar um político melhor que dá mais coisas pra gente.
Contente com a idéia da mãe, que por ora foi também sua. Juninho sorridente completa:
– É... aí nós pode comer maçã de manhã. E quando é que nós tem que votar, mãe?– Você não votar, menino. Só de maior pode votar, ou então quando você fizer 16 anos, se quiser. A próxima eleição é só em 2012.– Haaa! Pensei que era coisa de todo dia.– Quando for na cidade pergunto às pessoas de lá, que são mais informada, quem são os político melhor que o seu Manoel.– É... aí quando ele vier pedir a senhora pra votar nele a senhora diz que vota, mas que vai querer um bocado de maçã da roça dele e mais um monte de coisas, né mãe?- É Junhinho...
Finda a refeição, o café e a conversa; dona Maricota recolhe o prato do menino e se dirige ao quintal e coloca numa pia de improviso, ao lado pega uma vassoura de folha de rabugem e se dirige ao curtíssimo terreiro para apartar algumas folhas secas trazidas pelo vento da grandessíssima fazenda do Doutor Manoel. Logo atrás dela chegava o menino no encalço. Ele parou e observou a beleza das flores do maracujá que trepavam junto a cerca, observou e observou. De repente um Jeep saia da fazenda lentamente...
– Olha Juninho, não morre mais...
Dona Maricota interrompeu a varredura e parou a observar a passagem do imponente carro do doutor. Juninho correu, a abraçou e enquanto passava o monstro de metal, ambos acenavam sorridentes para o bigodudo político, fazendeiro, coronel que se esvaiu deixando somente poeira para trás.

3 de janeiro de 2011

A vizinha


Na porta do micro apartamento, com a chave prestes a ser virada Jonny vê a dois ou três apartamentos do seu uma garota recostada no vão da porta a observá-lo. Acenou com a cabeça encenando um comprimento informal. A moça então usando um longo vestido duas cores se dirige ao rapaz em sinuoso rebolar.
- Boa noite. Disse a garota.
- Boa noite... Deseja algo?
- É...
Interrompendo as reticências Jonny entoa um retórico convite:
- Estou prestes a assistir um filme, se assim desejar pode vê-lo comigo.
- Claro.
Girou-a e prestes a mergulhar as duas personagens dentro de um universo pouco amistoso aos normais, Jonny questiona a garota:
- Você sabe que não existe filme algum, não sabe? Em tons de piada.
- Sim. Mas você sabe como funcionam as coisas, ? Mulheres não podem se oferecer assim de cara. Temos que dissimular e fazer uma charmezinho às vezes.
- Percebi. Por isso a convidei a ver um filme, mas percebi que você não estava interessada em assistir nada, pois nem questionou nomes.
- É... e como eu estava sem nada pra fazer...
- Está bem. Pronta a penetrar no meu mundinho?
Mesmo antes de pensar em responder a porta jazia aberta. Jonny adentrou o ambiente segurando a porta esperando que a garota entrasse, coisa que ela não fez. Atrás do rapaz uma escuridão lúgubre envolvia o ambiente. Ele percebe o receio que a garota tem daquela escuridão. Estende à mão sorridente. A vizinha empresta-lhe às suas e segura às do rapaz que a puxa sutilmente ao encontro de seu corpo, na parte iluminada pelas luzes do corredor, abraçando-a e beijando-a ao pescoço.
- Espera aqui que vou ascender às luzes; Enquanto pronunciava estas palavras soltou uma das mãos da garota; mas foi bruscamente reprimido.
- Não. Disse a moça trazendo-o de volta ao encontro de seu corpo. Não precisa ascender às luzes; disse baixinho ao ouvido do rapaz.
- Não estava com medo do escuro?
- Não. Só cheguei a pensar por alguns instantes se você não seria um maníaco psicopata que dilaceraria meu corpo, depois transaria com meu cadáver. Respondeu a garota com ar de galhofa.
Ainda abraçados, Jonny percebeu o largo sorriso nos lábios da garota. Afastaram, então, os rostos, olharam-se no ambiente pouco iluminado e beijaram-se com tanto aperto e apresso que não parecia ser aquele o primeiro encontro erótico do casal. Enquanto trabalhavam naquele ato furtivo, a senhora do 37 transitava pelo corredor parando a observar àquela cena boquiaberta. O ato torna-se tão intenso que se esvaíram na escuridão do apartamento sem dar a mínima atenção a senhora que com certeza estaria divulgando o ocorrido no dia seguinte. Penetraram a escuridão tateando os poucos moveis de referência até encontrarem um local adequado – se é que existe –, para se confortarem. A vizinha então lambeu o pescoço dele e agora podia sentir seu cheiro de macho. E, em meio a leves gemidos e calafrios, Jonny comenta lascivo:
- Adoraria comer algo...
A garota abriu as pernas após esse comentário, revelando uma calcinha verde, tão pequena que mal escondia-lhe o sexo, tirou a calcinha lentamente de onde estava e manteve as pernas abertas exibindo-se para o rapaz boquiaberto, pondo o membro pra fora; naquela noite fizeram mais que transar... realizaram, pois, seus ardentes desejos de sexo; ela: com o rude e até misterioso Jonny, que a penetrava como um animal sedento; ele com a bela negra cor cuja beleza abria-se em voluptuoso desejo.
Interrompendo o coito abruptamente ela levanta-se... Jonny prende a respiração, ela ajeita a verde calcinha lentamente, ele solta a respiração de uma vez; ela olhou para ele lasciva, correu até o interruptor de luz da cozinha pouco iluminado por uma veneziana e o ascendeu, dando maior visibilidade ao local e a figura exaladora de hormônios masculinos; andou na sua direção, aproximou-se lentamente em movimentos sinuosos que iam sutilmente se transformando em uma dança de fogo. Desamarrou a sensual calcinha de um lado, arrancou o longo vestido duas cores e deixou o seio a mostra, eram um belo par de mamas com bicos rijos em leve amarronzado, ele sente o membro arder de tanto desejo, ela se aproxima mais e dança até o chão com a mão entre as pernas fazendo movimentos libidinosos. A atração era enorme, Jonny colocou a mão na cintura da vizinha apertou suavemente e a trouxe para junto dele, mas ela se afastou como se brincasse de presa e predador; aproveitou então para tirar o resto de roupa que cobria-lhe o corpo. Feito isso, percebia-se a respiração ofegante e os lábios se aproximando, o beijo foi suave e cheio de desejo. O ambiente vaporizado ficou quente e as mãos do rapaz deslizaram suavemente pela macia e negra pele, cheirosa e quente de sua vizinha.
Assim passaram a noite. Transaram, amaram, gozaram.
- Ainda quer comer algo? Questionou a moça carinhosamente; a resposta não veio.
Se abraçaram e dormiram confortáveis. A noite acabou num sono de desejo.
Acordaram no dia seguinte e, normalmente, levaram suas vidas.

27 de dezembro de 2010

Um Samba chorado: Pinceladas d‘O Machete.


Num lugarzinho ali, próximo aos arredores do Morro Chuchu, na Valéria, Juca observava as luzes de cima e as misturas sonoras que ecoavam morro abaixo. Logo quando criança vira seu pai a tocar felizes sambas para a comunidade localizada somente ali mesmo, com um cavaquinho, o qual agora fica exposto no quarto; crescera vendo a mata de cima sendo derrubada e povoada. Agora recém casado e empacotador num supermercado do bairro ostenta entrar para a faculdade de música na Universidade Federal da Bahia e tocar na orquestra sinfônica.
Juca tinha uns 23 anos, por aí assim. Era alto e forte; achocolatado como as meninas das escapadas o classificara. Próximo a completar 23 casou-se com Bela. Juca a conhecera num partido alto quando tocava com os amigos, para se divertir e faturar uma grana. Logo se encantaram, Bela tinha um remelexo hipnotizante nos quadris, um belo sorriso envolto por fartos lábios apimentados. Foi amor a primeira vista.
O primeiro encontro o fazia lembrar a forma como fora apaixonante ouvir um sujeito na Avenida Sete tocando uma música sem vozes, com um instrumento só. Era também um cavaquinho, mas o rapaz o tocava como se acariciasse o instrumento, o tocava e o sentia. Era harmonicamente sublime. De repente, um outro rapaz aproximou-se lenta e naturalmente com um violão como que sambando meio de ladinho. Encantando, agora, uns três ou cinco ouvintes que ali pertinho se encontravam.
O do cavaco era o Jr. e o do violão Bruninho. Assim que os rapazes pararam a música Juca direcionou-se a eles.
- Olá!
- Olá.
- Ouvi vocês tocando, achei excepcional.
- É chorinho. Tocas também?
- Toco. Mas não isso aí. Toco pagode.
- Vamos tocar uma juntos. Puxe um aí.
De pronto Juca emendou um lá lá . Então os rapazes começaram o acompanhamento. Quando se deram conta estavam tocando um pagode meio vulgar conduzido por Juca; então pararam a música; Juca percebeu o desgosto dos rapazes em produzir aquele som. Então sorriu amarelamente e logo disse imponente:
- Quero tocar igual a vocês. Onde moram?
- Moramos no Costa Azul e você?
Engoliu reticente e respondeu: Na Valéria, aos arredores do Morro do Chuchu.
- Poderíamos tocar um dia na comunidade e depois ensaiarmos. Disse Bruno.
Juca ficou contente e confuso. Definitivamente aqueles caras não eram dos típicos playboys da zona nobre; ponderado, então, Juca sorriu e assentiu. Trocaram telefones para combinarem um dia e se despediram.
O casal tinha uma vida harmoniosa, apesar da moça não gostar mais que seu marido tocasse em partidos onde moças sedutoras requebravam a vontade. “E não gosto mesmo!” Reclamava sempre entoando um ciúme autoritário. Assim, Juca juntou “o útil ao agradável”, pois aprender a tocar chorinho significava, temporariamente, não tocar nos partidos e apaziguar, como sempre fizera, a relação com Bela.
Ela era uma moça de um metro e setenta e oito, por aí assim. Negra como se fosse da Costa; os cabelos em brilhante negro nagô davam um charme excepcional. Estudava num curso de administração numa faculdade privada daquelas que apareceram como trazidas numa enxurrada. Eram felizes, mas ela odiava a idéia de disputar o carinho do rapaz com o instrumento. Num dia desses aí, no ano de 2010, parecendo um Sábado, os tocadores estabeleceram contato indagando sobre a possibilidade de tocarem em algum ambiente nos pés da comunidade. Na realidade era um projeto dos dois de difundirem o estilo musical. Juca topou e ficou combinado da seguinte forma: se encontrariam às 14 na casa de Juca e à noite fariam um som no local.
Na hora exata aparecem os rapazes no local combinado. Num ponto coletivo ali aos arredores da MegaTork. Num carro popular com vidros escuros Jr. e Bruno convidam Juca à entrar; entrou e disputou espaços com um violão e um cavaquinho no banco de trás; compartilharam as afinidades, sonhos e planos durante o trajeto. Bruno concluindo o curso de Direito aos 24 anos, estava na carreira por tradição familiar; Junior tentara ingressar no curso de música da UFBA, mas sem sucesso. Juca logo afiliou-se a este devido ao sonho de entrar no curso de música tanto quanto pelo instrumento.
Muitos buracos e esgoto a céu aberto – um forte cheiro – enfrentou o veículo popular até chegar à casa do pagodeiro; era uma casa simples pequena e com pouca luz. Alguns poucos móveis, mas forrada de equipamentos eletrônicos, favorecidos pelas longuíssimas linhas de crédito. Bruno parou observando detalhes, não muito surpreso; As paredes pintadas com tinta de longa data, tinha na estrutura todos os sinais temporais e um quadro exibindo fotografias do casamento. As quatro primeiras paredes estavam cheias deles.
- Acomodem-se, por favor. Disse Juca, enquanto entreva no quarto para pegar seu instrumento.
Os rapazes sentaram-se no sofá, mas logo levantam-se afim de resgatarem os instrumentos no carro.
Fica ai, deixa que eu pego. Disse Bruno.
Junior concorda e recosta-se despojadamente no sofá; alguns segundos mais Juca aparece e cordialmente oferece uma bebida ao rapaz questionando sobre a presença do outro – a bebida teria sido rejeitada:
- Cadê?
- Cadê, o que?
- Bruno.
- Ah...! Foi no carro pegar os instrumentos. Já já começamos.
Ao encerrar o ligeiro bate-papo Bruno aparece com os instrumentos acomodando-se ao lado de Jr. Do outro lado entrecortado geograficamente por uma mesinha de centro, Juca.
- Então? Por onde começamos?
- Vamos tocar alguma coisa aqui você observa e tenta acompanhar. Depois a parte teórica.
- Certo, então.
Começaram, pois, em um no baixo do violão, logo Jr. iniciara a composição de uma forma simples, então Juca começou a acompanhar o som, empolgado. Sorridentes tocavam os três em harmonia. Até que Jr. iniciara um dedilhado. Uns gestos velozmente estranhos nos dedos, os quais não deixavam Juca ver e sentir as notas tocadas. A partir desse momento somente dois instrumentos sonorizavam a sala. Juca ficou tão nervoso que nem pensou em continuar o ritmo, pensava só em tocar daquele jeito: veloz e com encanto.
Entre a parede que separava a sala da cozinha jazia Bela, encantada pela produção sonora. Encantada. Observava tudo com ares amáveis. Juca a percebeu. E, quando os rapazes interromperam a música ela ergueu palmas aos rapazes, ligeiramente envergonhados. E assim, transcorreu o tempo. O contato havia dado certo para Juca, mas não para os novos amigos, pois a comunidade não apreciara muito o som. Ainda assim, eles a freqüentavam. Entre toda a comunidade apenas Bella e mais alguns poucos moradores admiraram o som. O que ela não gostava mesmo era a atenção exacerbada que o marido tocador aplicava às melodias.
Passaram-se muitas semanas até o próximo encontro; Juca aplicando-se ainda mais ao instrumento para poder surpreender os amigos, mas o que mais conseguia eram reproduções de solos pagodeiros. Todavia, no dia marcado para as aulas, somente Bruno apareceu, pois havia Jr. adoecido. Juca sentado às portas do fundo a observar morro acima, enquanto um ar seco e quente acariciava maliciosamente sua face; a porta estava aberta e, da entrada o rapaz chegante podia ver o colega sentado à porta do fundo, num banquinho de madeira, com o instrumento nas mãos, abafando as cordas e entoando mudas notas, mudas.
- Que houve amigo?
Juca estava mudo. Como mudas ficaram as cordas. A cabeça baixa os olhos baixos e os tons agudamente baixos.
- Ela se foi! Foi-se por causa do cavaco.
Juca chorava o chorinho que nunca conseguira produzir.
- Como?
- Nada!
Juca chorava, silenciosamente. Mas o cavaco, não. Levantou-se, de cabeça baixa, segurando friamente o instrumento, atravessou o caminho do amigo, a cozinha, a sala e, penetrou o quarto onde jazia o cavaquinho, guardado com tanto carinho e respeito, do seu pai. Depositou ali seu sonho também. Recolheu a saudade. Horas depois o mal do século o acometeu.

2 de dezembro de 2010

Estive vadiando por ai nos últimos tempos, na universidade principalmente, mas estou de volta;

Agora escreverei com maior frequência, assim espero. Apesar de ficar entediado para escrever, pois estou duro, sem grana para manter a net em casa, o que me dava conforto e relativa criatividade.

No momento, só escrevi um conto, enquanto assistia um seminário...
Breve, postarei algumas coisas novas.

Abraços e obrigado aos que têm frequentado o blog
mesmo sem nada de novo para ler.

Hippie em movimento.

O crepúsculo caia e o sol em amarelo avermelhado cortava em feixes de luz as longas folhas elípticas das árvores, formando um luminoso túnel no Parque da Cascata, no ínfimo distrito de Quaquaqua Nhenhenhem.

Eu, como espectador do espetáculo natural, apreciava tudo serenamente; enquanto uma fresca brisa me acometia decidi - com muita dificuldade - caminhar e entrar em contato com os transeuntes além do parque.

Enquanto caminhava pelo túnel de Ipês e Paus Brasis, o sol sutilmente cobria minhas costas esticando largamente minha sombra e o vento acariciava de forma suave a copa das árvores e minha barbuda face; via, assim, o túnel florestal se esvair e uma movimentada zona urbana materializar-se lentamente diante de mim.

Penetrei a zona dubiamente e sem motivações; caminhava, já, entre duas fileiras de prédios modernamente emparelhados onde os últimos raios de sol os riscavam em diagonal. Uma multidão de passantes, no horário de pico, por volta das 18:10, por aí assim, vinham em minha direção. Andar naquela passarela exigia um jogo de malabares corporal excepcional; caminhei, pois, de cabeça baixa, observando vultos e sapatos, ténis, tamancos, alpercatas, raros chinelos, talvez só os meus.

Mais a frente, um grupo de pés descalços me chamou a atenção, era estranhamente novo. Três ou quatro. Dedos empoeirados em cinza e fortes canelas expostas. Diferentes para o ambiente, a muito frequentado por mim. Diferente porque o bairro ao redor do parque era composto e frequentado pela classe dita média alta, ou sei lá o que, empresarial e o parque estava na maioria das vezes ermo. Ao me aproximar, percebi que eram tradicionais hippies, embalados ao som de um violão, às rasgadas falas d'O vampiro doidão.

Em instantes toda a estranheza que o ambiente, naturalmente hostil me causava foi abatida pela alegria desbocada dos quatro viajantes. Ao mesmo tempo em que causava olhares fulminantes de resistência nos jovens empresários.

Então, em meus simples trajes, bem longe da toga terno-gravatesca dos passeantes, acocorei-me, cumprimentei "os caras" e sentei na calçada. Parei então a pensar: para que RG? CPF? Todos esses números de controle? Se a vida é melhor cantada e viajada? Porque sofrer as depressões - o mal do século XXI? Refleti, cantei. Gozei aqueles curtos minutos, três ou cinco, por aí assim; todavia, quando os olhos abri, percebi que estava amarrado a todas aquelas questões feitas a pouco, a uma série de valores morais sempre posto em cheque, mas constantemente vividos.

Levantei, à duras forças, saldei os corteses camaradas e deixei alguns trocados patrocinadores do alimento e da continuação da viajem. Me retirei e retomei minha caminhada hippie, sendo um, dentro dum minúsculo distrito.

24 de agosto de 2010

Beso

Ela permaneceu nos braços fortes de Gomes durante um longo tempo, sem pronunciar uma única palavra. Um beijo longo, profundo, vibrante, elou as duas bocas que se encarnavam com tanto desejo e ansiedade! Não era precisamente um beijo...Era uma coisa estranha, original, como se aquelas duas almas fugissem pelos lábios em contato, desapareciam entrelaçadas, fortemente ligadas, e surgiam de novo no desejo de fazerem das duas bocas uma só boca , daqueles dois corpos, um corpo só. Cachoeira e pico, próximo a se combinarem temporariamente, próximo a erotizarem um ao outro. Um beijo! - CC

13 de agosto de 2010

Wanted!

Não quero você nua, quero você minha
Não quero você cedo, quero por inteiro a qualquer hora

Sem medo do toque
Sus-piro

Intensamente minha.
Vibrante errante, exitante
Que o tempo se acabe
Num instante - excitante

Sem medo do toque
Suspiro

Desejo que o medo se vá
Desejo que o medo se dane

Desejo, desejo, desejo
Seu cheiro, seu toque, seu rock
Desejo...
Seu beijo, suas ondas, sua tonta


Desejo seu gemido, seu tremer
Desejo você.

Mulher!

7 de agosto de 2010

Camuflado




Preciso me esconder constante'mente
Minto para mim, que não
Sou nada tão assustador assim
Como um ogro animal, mas sou
Nada mal!
Mau mesmo!

"A barba, por ser quase uma máscara,
deveria ser proibida pela polícia.
Além disso, enquanto distintivo do sexo
no meio do rosto, ela é obscena:
por isso é apreciada pelas mulheres."

Schopenhauer.

14 de julho de 2010

Eu amor

O amor verdadeiro, o grande amor, o amor não é o que a sociedade reconhece e justifica; não representa um compromisso social e religioso. Ele deve brotar da alma para a alma e de alma para alma, sem tropeçar antes na toga de um juiz ou a batina de um padre, pedófilo ou não. Deve ter a espontaneidade dos aromas e a grandeza dos destinos. Fruto de um olhar, de um sorriso, semente de um beijo, o amor deve ser livre, espontâneo, natural, para ser grande, para ser puro, para ser amor! Ligar um ser a outro pelos laços, ridículamente fúnebres, de duas assinaturas abaixo de um nome é um compromisso estupidamente jurídicos e juridicamente autoritário. Deveria ser......quem sabe um crime? CC

8 de julho de 2010

Números

Sinto falta dos 19, quando sentava na praça com a viola e o vinho. Sinto falta dos 18 quando praceava de skate cima baixo. Falta muito mais dos 15 quando comia tudo, até quando não podia. 16 e 17 sinto mais ainda, mas deixa pra lá. 14 e 15 sinto falta da escola da saudade dos 10, 11 e 12 no qual o 13 foi o ponto alto. Hoje é outro. Não sinto muita falta entre o 5 e o 10, também não lembro muito, mas sinto falta do dog - ainda () sinto falta da goteira e da temporada na roça (goiabeira, mangueira, rio, fonte, mato). Sinto falta. Dos 3 (acredito recordar), 4 e 5 brincando na areia, soltando pipa (com papel de bala, queimado). Sinto falta. Bom mesmo e desesperador foi entre o 19 e o 21. No tempo senti de tudo, exceto falta de alguma coisa. Senti medo, nada, desejo, desejo, desejo, desejo. Desejei tudo que não tinha conseguido anteriormente. Mas desejei tanto que senti medo de desejar. Quase amei. No 22 e 23, amo, elouqueço, padeço. Sinto falta; de tudo que comi, tudo que andei, tudo que corri, mas só agora percebi que não tinha percebido nada, mas eu corri? comi? andei? Não sabia, mas agora sei. No 23 ¹/2 sinto falta de ter vivido tudo exatamente igualzinho de forma diferente.

Os anos se passaram.